Há valor nos valores do Scrum

O Scrum não é uma metodologia, é um processo, mas não do tipo repetitivo. Ele é um framework de regras, papéis e princípios. O framework, por sua vez, ajuda pessoas e organizações a descobrir o que lhes serve melhor. Os seus processos reais surgem e são ajustados de acordo com a sua maturidade e contexto. Dessa forma, o Scrum pode se sobrepor a práticas de desenvolvimento já existentes e torná-las ultrapassadas.

Os benefícios do Scrum são maiores quando ele é acompanhado de gerenciamento de produto e de pessoas, bem como de boas práticas organizacionais e de engenharia. A utilização do Scrum se limita a sua essência e cada elemento desse processo tem seu propósito. Mudar o seu desenho estrutural, deixando de lado alguns desses elementos, sem jogar o jogo de acordo com suas regras, pode acobertar problemas e limitar os seus benefícios, a ponto de torná-lo completamente inútil.

Menos conhecidos que os processos do Scrum, e provavelmente subestimados, mas não menos importantes, são os Valores do Scrum nos quais o framework é baseado. Veja-os a seguir.

  • Comprometimento
  • Foco
  • Abertura
  • Respeito
  • Coragem

Estes valores relacionam-se à ética do Scrum, transformando-o assim, do ponto de vista social, em um sistema de valores.

Apesar de não terem sido inventados como parte do Scrum, ou exclusivamente para ele, esses valores direcionam nosso trabalho, nosso comportamento e nossas ações. Diante disso, vale ressaltar que aspectos como o contexto das decisões que tomamos e dos passos que damos, a maneira como aplicamos o Scrum, as práticas que adicionamos a ele, bem como as atividades que o permeiam, deveriam reforçar esses valores, e não diminui-los ou enfraquecê-los.

Achei importante trazer este tema à tona para discutirmos a importância da nossa prática com relação aos valores Scrum. Isso pode nos ajudar, inclusive, a refletir a respeito da aplicação do framework em si. É possível utilizar o Scrum como se fosse uma metodologia; organizar as reuniões, direcionar os envolvidos para que todos estejam totalmente alinhados a todas as ações do framework. Mas a questão é: o framework está sendo utilizado para o que foi desenhado? Isso não limitará as melhorias para os indivíduos, para o time e para a organização?

Uma boa ilustração é como eu vejo alguns times realizando suas Daily Scrum. Todos respondem às 3 perguntas (Feito? Planejado? Impedimentos?) de uma maneira razoavelmente espontânea ou, no pior dos casos, quando perguntado pelo Scrum Master. Mas o time utiliza a reunião para compartilhar informações, para colaborar com o replanejamento do trabalho do dia, para se assegurar de que os integrantes não vão enlouquecer nas próximas 24h, para obter o máximo da Sprint, ao avançar em direção a meta dela? Ou eles se preocupam apenas em garantir que a gerência ou a direção da empresa saiba as tarefas que eles estão fazendo?

 

A seguir, observe uma visão detalhada dos valores e como eles podem guiar ações e comportamentos no contexto do Scrum.

 

1.1       Comprometimento

 

Há uma interpretação errada e amplamente difundida com relação à palavra comprometimento no contexto do Scrum. Isto foi criado, principalmente, pela antiga expectativa do Scrum de “compromisso” do time com a Sprint e com os itens selecionados do Backlog do Produto. De acordo com o velho pensamento industrial, que dominou o desenvolvimento de software por muito tempo, isso erroneamente se transformou na expectativa de que todo escopo seja entregue, não importa o que aconteça. “Comprometimento” foi transformado, equivocadamente, em um contrato que não pode ser quebrado, quando na verdade deveria sempre representar um indicador de que o time faça o máximo possível na Sprint e de que seja completamente transparente com relação ao progresso. Além do mais, em um mundo complexo, criativo e com alta imprevisibilidade, como é o do desenvolvimento de software, comprometimento com o escopo é praticamente impossível.

A definição da palavra, de acordo com o dicionário Oxford, descreve exatamente o que foi pensado originalmente para o Scrum:

 

  • Comprometimento

 O estado ou a qualidade de se dedicar a uma causa, uma atividade etc.

 

Portanto, comprometimento está relacionado à dedicação aplicada às ações e ao esforço, não ao resultado final.

O compromisso é com o time, com a qualidade, com a colaboração, com o aprendizado,

 

1.2      Foco

 

Uma abordagem iterativa-incremental e time-boxing, como o Scrum, nos permite ter foco. Focamos no que é mais importante AGORA sem nos incomodarmos demasiadamente com considerações que, em algum momento, tenham chances de ser importantes. Focamos no que está mais próximo e no que o presente pode nos ensinar para que estejamos preparados para o trabalho futuro. Focamos no trabalho para ter as coisas feitas. Focamos nas coisas simples que podem ser feitas.

 

1.3      Abertura

 

O empirismo do Scrum exige transparência e abertura. Queremos inspecionar a realidade para que seja possível realizar adaptações. Estamos abertos com relação ao nosso trabalho, ao nosso progresso, ao nosso aprendizado e aos nossos problemas. Mas também estamos abertos às pessoas e a trabalhar com as pessoas, permitindo que pessoas sejam pessoas e não recursos, robôs ou peças substituíveis de uma máquina, já que o desenvolvimento de software, no final das contas, ainda é realizado por trabalho humano. Nós estamos abertos a colaborar com nossas habilidades e conhecimentos. Estamos abertos a colaborar com as partes interessadas e com um ambiente maior. Abertos para compartilhar feedbacks e aprender uns com os outros. Abertos às mudanças, uma vez que a organização e o mundo em que ela opera mudam imprevisível, inesperada e constantemente.

 

1.4      Respeito

 

Nós mostramos respeito pelas pessoas, por suas experiências e pela sua história. Respeitamos a diversidade (ela nos torna mais fortes). Respeitamos opiniões (podemos aprender com elas). Mostramos respeito pelos nossos patrocinadores, construindo funções que as pessoas possam utilizar. Mostramos respeito não desperdiçando dinheiro em coisas que não possuem valor ou que podem nunca ser implementadas ou utilizadas. Mostramos respeito pelos clientes/usuários corrigindo os defeitos no produto. Respeitamos o framework Scrum. Respeitamos nosso ambiente e nosso contexto quando não agimos como uma ilha isolada do mundo. Respeitamos as habilidades, as experiências e as ideias uns dos outros. Respeitamos as responsabilidades dos papéis do Scrum.

 

1.5      Coragem

 

Mostramos coragem em nos recusarmos a construir coisas que ninguém irá utilizar. Coragem em admitir que requisitos nunca serão perfeitos e que nenhum plano pode capturar a realidade e a complexidade. Coragem de considerar mudanças como uma fonte de inspiração e inovação. Coragem de não entregar software inacabado. Coragem em compartilhar todas as informações possíveis que possam ajudar o time e a organização. Coragem em admitir que ninguém é perfeito. Coragem de mudar a direção. Coragem de compartilhar riscos e benefícios. Coragem de promover o Scrum e o empirismo para lidar com a complexidade. Coragem de abandonar as falsas crenças do passado.

Nós mostramos coragem acreditando nos valores do Scrum.

 

(Tradução e adaptação livres do artigo “There’s value in the Scrum Values”, de Gunther Verheyen, publicado originalmente no site https://guntherverheyen.com/2013/05/03/theres-value-in-the-scrum-values/)

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